Os Magos

08/07/2009 - Jornalista - Brasília
Fabiana Ferreira

Paulo Coelho me chegou às mãos quando eu ainda era adolescente e sem o discernimento entre um bom e mau livro. Eles eram todos para mim uma entrada (ou uma saída?) num mundo paralelo muito melhor. Daí, adorei O Diário de um Mago e O Alquimista como adorei todo o resto da literatura que me caía nas mãos: de Machado de Assis até padre Boff e coisas sobre dança, cinema, teatro.
Quando ganhei Brida, já cursava comunicação social – e aí sim, me sentindo super adulta, julguei o livro um lixo. Mérito meu, só mesmo o fato de ido até o fim para poder falar mal nas rodinhas da faculdade. E foi mais ou menos com esse pensamento que peguei a biografia do Paulo Coelho - O Mago - para ler. E, ainda bem! Digo isso por duas razões: descobri com Paulo Coelho o escritor Fernando Morais. E no livro O Mago, um personagem surpreendentemente interessante, ímpar, que incomoda tanto que é até capaz de me mostrar uma coisa ou outra a respeito de mim mesma.
No livro O Mago, o recurso de flashback é usado com parcimônia e elegância. A história começa no presente, anda para trás e chega no presente-futuro, tempos depois de onde começou no capítulo um. Aqui e ali há pequenos vem-e-vai no tempo e no espaço, descolando o livro da chatice linear histórica que permeia a vida humana, seja ela entediante ou não.
Fernando Morais dá vida à vida de Paulo Coelho misturando a sua voz de narrador com a do próprio personagem. Essa amarração é tão bem feita que eu poderia jurar que Morais esteve ali, com Paulo Coelho, na internação do manicômio, nos porões do DOPS, olhando o chão sumir dos pés no culto ao Satanás.
Sem dúvida, os diários que o personagem guardou por toda a vida e entregou sem piedade nas mãos do biógrafo ajudaram a rechear o livro com digitais do próprio personagem; mas até aqui Fernando Morais dosou certinho: lemos os diários de infância, adolescência e vida adulta de Paulo Coelho, só que com a mão segura do autor a nos trazer de volta ao fio narrativo de uma história de vida tão comum que é rejeitada pelo próprio protagonista. Paulo Coelho se recusa a caber no mundo dos outros e se reinventa sem cerimônias: quando esperavam que ele fosse um drogado, ele parou; um flerte incorrigível, se casou; adorador do Demônio, rompe o contrato com o Coisa Ruim e parte para sua jornada de futuro Mago.
Filho de classe média alta carioca, tradicional, católica, Paulo Coelho foi mau filho, mau aluno, mau amante. Só não admitia ser considerado um mau escritor, obsessão que perseguiu a vida toda, atropelando tudo que tentasse afogar o desejo de ser o escritor mais vendido no mundo. Fernando Morais escreve com estilo uma prosa leve e deixa a densidade do drama de Paulo Coelho levar os olhos do leitor até as últimas palavras do livro.
Sorte eu não ter uma opinião formada sobre tudo! Terminei O Mago admirada. Em silêncio, passei dias com a história na cabeça sem conseguir dizer o que mais me marcou. Definitivamente, Fernando Morais me fez gostar de Paulo Coelho.