Golpe do Destino
04/07/2009 - Fina Flor
Monica Montone
A delícia de se ler uma biografia de alguém que ainda transpira seus sonhos pelo mundo afora é, certamente, a alegria de saber que a qualquer momento, por um golpe do destino, você poderá cruzar com a pessoa numa esquina.
Quase sempre choro ao final de biografias póstumas. Foi assim com ''O Anjo Pornográfico'', de Nelson Rodrigues e com os livros sobre Tim Maia e Leila Diniz.
Hoje, porém, não precisei chorar. Ao terminar de ler a biografia de Paulo Coelho, O Mago, de Fernando Morais, não tive dúvidas: ter “Brida”, como a primeira leitura escolhida por mim e não por imposição da escola ou dos pais, foi uma grande sorte.
Foi a linguagem de Paulo Coelho (direta, franca, simples e não por isso, menos profunda que qualquer outra) que me aproximou dos livros. Depois dele, na mesma época, descobri Mario Quintana e Vinícius de Morais, poetas que, como ele, sabiam que a beleza está na simplicidade.
E foi por amor a Vinícius de Moraes que comecei a escrever aos 15 anos. Ou seja, talvez se eu não tivesse lido ''Brida'' não tivesse chegado por conta própria aos poetas e não tivesse me tornado escritora e lançado meu livro de poemas, ''Mulher de Minutos'', dez anos depois.
De lá para cá, muitas leituras foram incorporadas à minha vida. Dentre elas, os filósofos Sartre, Nietzsche, Freud, Lacan, Perls, Jung, os poetas Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Jorge de Lima, Manuel Bandeira e os consagrados Cervantes, Marquez, Joyce, Lispector, e, ainda, Coelho, além de tantos outros.
Segui lendo “As Walkirias”, “O Alquimista” “Verônica decide morrer”, “O Zahir” (o melhor livro de Paulo Coelho na minha opinião). E nunca entendi direito porque diabos as pessoas que o criticam [a maioria sem jamais ter lido um livro dele] nunca entenderam uma coisa tão óbvia: Paulo Coelho escreve sobre filosofia. Só que, ao invés de arrotar citações complicadas, ele coloca as elucubrações acadêmicas na boca de um guru que vive na montanha ou de um sábio mendigo de rua.
Quem já leu Freud, por exemplo, percebe claramente que O Zahir nada mais é do que um pequeno tratado sobre a obsessão.
''O mago'', livro de Fernando Morais, também autor de diversos livros premiados, dentre eles, Olga, que acabou virando filme, é, sem dúvida, uma das melhores biografias que já li. As 630 páginas podem assustar num primeiro momento, mas basta ler o primeiro capítulo para se apaixonar e não parar mais.
Primeiro porque a narrativa é afiada, por vezes o autor ironiza o biografado, e a sequência dos fatos é digna de um grande romance ou um enredo nos moldes aristotélicos.
Segundo porque a trajetória de Paulo Coelho é realmente fascinante.
Você sabia, por exemplo, que ele namorou com a atriz Renata Sorrah e que esta tentou ajudá-lo a fugir de uma de suas três internações em hospitais psiquiátricos nos quais foi submetido a choques elétricos?
Que ele atuou como diretor de teatro de montagens importantes e consagradas e atuou como ator ao lado de Marília Pêra? Que aos 23 anos já tinha lido 300 livros? que seu primeiro livro publicado foi um livro sobre teatro “O teatro na educação”? Que a música “Esse tal de rock and roll” é de sua autoria?
Que dirigiu um espetáculo de Sidney Magal? Que inventou um prefácio para o seu livro “Arquivos do inferno” assinado por Andy Warhol?
Que chegou a ganhar meio milhão de reais editando antologias de poesia? Que seu grande primeiro sucesso, ''Diário de um mago'', vendera 35 milhões de cópias e permaneceu na lista dos mais vendidos da revista Veja por 208 semanas?
Que Romam Polanski já quis filmar um livro seu? Que já deu o bolo em Sharon Stone? Que vendeu mais de 100 milhões de livros?
Eu não sabia! E fiquei extremamente encantada e grata a mim mesma por não ter me permitido sujar no preconceito que alimenta a tantos - 0 que me faria ter mantido distancia de seus livros e universo.
Assim como não sabia que uma das músicas que escolhi cantar no show de lançamento do meu CD, dia 8 de julho no Cinematheque, é dele. A música? Só indo assistir para descobrir!
O livro de Fernando Morais está sendo lido em mais de trinta países.