''O Mago'' foi a obra mais difícil, diz Morais
26/06/2009 - FOLHA RIBEIRÃO
JC
O jornalista e escritor Fernando Morais, experiente em escrever biografias, diz que ''O Mago'', sobre Paulo Coelho, foi a obra mais difícil. Ele estará no Salão de Ideias de amanhã, às 19h, na Feira do Livro. A seguir, trechos da entrevista.
FOLHA - Qual biografia exigiu mais seu esforço?
FERNANDO MORAIS - Venho da primeira experiência de escrever para alguém vivo. Foi a mais difícil. Não é bom, por uma série de razões. Primeiro, porque ele está vivo, você não está escrevendo sobre uma vida, mas sobre uma parte de uma vida. Depois, porque no caso do Paulo [Coelho], trabalhei por quatro anos com ele, grudado nele. Por mais que você busque manter um distanciamento crítico, essa relação gera laços afetivos.
FOLHA - Houve uma crise?
MORAIS - Sim, acabou me trazendo conflitos de consciência, éticos, porque eu comecei a descobrir coisas da história dele que não são exatamente virtudes: drogas, homossexualismo, satanismo. Tive dúvidas se eu tinha o direito de expor de uma maneira tão crua fraturas de alguém que abriu a sua vida para mim. Então, descobri o óbvio: eu não podia submeter o meu leitor a uma censura que o Paulo não tinha pedido. Em nenhum momento, ele exigiu nada. Agora, quando é um morto, o objetivo do autor é colocá-lo para andar de novo o mais parecido possível com o que ele era quando vivo, como em ''Chatô -O Rei do Brasil''.
FOLHA - Quais erros devem ser evitados em uma biografia?
MORAIS - Os dois maiores riscos estão em algum tipo de envolvimento do autor com o personagem, canonizá-lo ou crucificá-lo. Com ''Olga'', por exemplo, tive dificuldade de manter distanciamento porque é um personagem apaixonante. Precisa ter cuidado para não fazer a biografia de um santo. Nem o oposto. Por exemplo, eu, de esquerda, falei de Chateaubriand, um capitalista.
FOLHA - As pessoas têm mostrado mais interesse por biografias?
MORAIS - Não sei. Procuro fazer da biografia um instrumento de revelar algo além do personagem. Então, se o personagem permite que você conte um pouco da história do Brasil, certamente será candidato a ser um livro de sucesso.
FOLHA - Qual autor ou livro foi uma referência para o sr.?
MORAIS - Minha geração se inspirou no chamado ''new journalism'' norte-americano: Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe. São jornalistas que decidiram escrever livros de não-ficção mas com um tratamento estético literário.
FOLHA - Qual o maior entrave para formar um público leitor?
MORAIS - Falam que livro vende pouco porque é caro, outros que é caro porque vende pouco. Na verdade, você resolve esse problema com educação, investimento em biblioteca pública, como nos países civilizados. A maioria não tem uma biblioteca pública.