O Caçador de Personagens

15/06/2009 - Revista Brasília em Dia
Marcone Formiga e Aline Ribeiro



ESCRITOR FERNANDO MORAIS

A trajetória do escritor Fernando Morais começou de forma surpreendente, quando trabalhava como office boy em uma revista institucional de um banco em Belo Horizonte. Como o único jornalista estava ausente, foi escalado para cobrir uma entrevista coletiva, oportunidade que segurou com firmeza. Com 18 anos, a capital mineira ficou pequena para ele. Sua opção foi ir para São Paulo, que, na época, já era o melhor mercado para jornalistas. Passou pelas redações do Jornal da Tarde, revista Veja e TV Cultura. Seu talento foi reconhecido em três Prêmio Esso que recebeu e mais quatro Prêmio Abril.

Na década de 70, resolveu fazer voo solo, como freelancer, e passou também a se dedicar à produção de livros, obtendo muito sucesso, como em “Olga”, sobre a mulher de Luis Carlos Prestes, Olga Benário; “Chatô”, sobre Assis Chateaubriand; e a “Ilha”, sobre Cuba. Não demorou muito e já tinha dois milhões de exemplares vendidos no Brasil e em mais 19 países. Seu livro mais recente é “O Mago”, uma biografia de Paulo Coelho, que lhe consumiu quatro anos de trabalho, deixando-o 10 quilos mais gordo e a pressão arterial com picos de 18 por 15. Isso sem falar na barba, que ficou branca.

Especialista, hoje, sobre Paulo Coelho, o escritor chegou à conclusão de que o livro irá fazer com que as pessoas passem a vê-lo dentro de uma dimensão humana que nem ele próprio imaginava, antes de escrever sua biografia, porque ignorava as tragédias em sua vida e como o personagem biografado conseguiu superá-las. Nesta entrevista, ele fala sobre o momento político atual do Brasil e o que mudou depois da eleição de Lula.

Marcone Formiga – Um garoto que trabalhava como office boy, torna-se jornalista aos 14 anos, com brilhante carreira, e depois opta pela profissão de escritor, com milhões de livros vendidos, além de uma trajetória política marcante. Tem ou não tem tudo para ser o personagem de um escritor?

Fernando Morais – Seguramente a resposta é não. A minha vida não tem absolutamente nenhuma graça – acredite no olfato de alguém que vive de descobrir bons personagens. O ativismo político e o jornalismo me permitiram conhecer gente e testemunhar episódios que, estes sim, podem dar bons livros. Mas qualquer jornalista da minha geração terá vivido experiências capazes, elas, de se converterem em livros.

Marcone Formiga – Cite um exemplo.

Fernando Morais – Um bom exemplo é a coluna do Augusto Nunes, do site da revista Veja na internet. A minissérie de artigos revelando os bastidores de encontros dele com presidentes do Brasil é de arrebentar os suspensórios. Já saiu Jânio e Figueiredo, e deve vir mais coisa por aí. Comigo, que nem ocupei postos importantes como o Augusto, acontece algo parecido: o importante não sou eu, mas o que vi, ouvi, li.

Aline Ribeiro – O Brasil está melhor ou pior que nas últimas décadas?

Fernando Morais – Continua muito ruim, mas está melhor, certamente. Ainda há abismos sociais separando brasileiros de primeira e de segunda classe, mas há avanços. Pena que a educação continue sendo um problema – e sem consertá-la definitivamente, pode tirar o cavalo da chuva, porque não sairemos do buraco. E é de arrepiar os cabelos saber que, dos 25 prefeitos que mais investiram em educação no Brasil, apenas quatro se reelegeram ou conseguiram fazer o sucessor. Lembra do Brizola? A obsessão dele era a educação. Começou uma revolução no Rio de Janeiro com os CIEPs – não tem segredo, é escola em tempo integral – e não conseguiu eleger seu sucessor, o grande Darcy Ribeiro. Não por acaso, o responsável pela implantação do projeto dos CIEPs. Educação não dá voto. Esse problema poderia ter sido resolvido pelos militares, que não precisavam de voto, mas eles sabiam que educar era libertar e que o melhor era deixar como estava. Fernando Henrique não curou essa chaga e nada indica que, até o final do mandato, o Lula vá fazê-lo. Ouvi com esperanças o presidente dizer que os recursos provenientes do petróleo da camada pré-sal serão prioritariamente investidos em uma revolução na educação pública no Brasil. Inshallah!

Aline Ribeiro – Um operário conquistou o poder democraticamente. O que isso pode significar para o futuro do Brasil?

Fernando Morais – Do ponto de vista do significado, a eleição do Lula – um metalúrgico pau-de-arara – foi algo de importância só comparável à escolha de Barack Obama, um negro com sobrenome islamita, para ser presidente dos Estados Unidos. Mas nós, os brasileiros, demos muita sorte com o Lula, porque o Lech Walesa também era operário e sindicalista, e deu no que deu, não é mesmo?

Marcone Formiga – Lula, antes mesmo de ser eleito, era a última possibilidade de a sua geração assistir o Brasil mudar. Mudou para melhor ou pior?

Fernando Morais – Mudou para melhor. Não é o governo dos meus sonhos, acho que podia ter avançado mais na questão fundiária e na educação, como disse há pouco. Mas o fato de ter incorporado um universo de 10 milhões de famílias ao mundo dos que almoçam e jantam todos os dias absolve o governo Lula de muitos dos seus pecados. Se imaginarmos cada família com quatro pessoas, temos uma população de 40 milhões de brasileiros que não comiam e que estão comendo.

Isso é quatro vezes a população do Chile, ou de Portugal, ou da República Checa. Se é bolsa-isso ou bolsa-aquilo, pouco importa.
Marcone Formiga – Ou seja, o estômago é uma bomba-relógio...

Fernando Morais – Fome você mata dando comida, não discurso. E, finalmente, não tenho dúvidas de que a política externa é, de longe, o ponto alto do governo Lula. Tenho rodado o mundo a trabalho, fazendo lançamentos do livro “O Mago”, e vejo o respeito que o Brasil passou a inspirar em políticos, intelectuais e formadores de opinião. E isso é fruto de uma política externa independente, não alinhada, que conseguiu dar ao Brasil uma dimensão que o país nunca tivera lá fora.

Aline Ribeiro – A trajetória de Lula daria um dos seus livros biográficos de sucesso?

Fernando Morais – Certamente a história do Lula ainda será objeto de novos biógrafos. Existe uma bela biografia dele, escrita pela Denise Paraná – e que será transformada em filme pelo Bruno Barreto. Mas o Lula continua vivo e ativo, no auge de sua energia. Com a popularidade nos cornos da lua, qualquer livro sobre ele agora é candidato à cabeça das listas de mais vendidos.

Marcone Formiga – Com o amadurecimento da democracia, será possível permitir à população, por meio do voto, separar o que é um bom candidato do que será um bom presidente ou governador?

Fernando Morais – Voltamos à questão central: sem educação as pessoas não têm condição de distinguir o bom do mau candidato. Isso vale para todos os postos: do vereador ao presidente da República.

Marcone Formiga – Afinal, o presidente Lula é um fenômeno político ou eleitoral?

Fernando Morais – Ambos, eu acho. Ele ainda tem muito chão pela frente, mas, se pendurasse as chuteiras agora, já entraria para a história pela porta da frente, ombro a ombro com vultos como Getúlio e JK. Porém, como diria o saudoso Jorge Escosteguy, ainda temos um longo caminho a percorrer antes de dormir.

Marcone Formiga – Ele é mesmo ‘o cara’, como afirmou o presidente americano Barack Obama?

Fernando Morais – Nos fóruns internacionais, Lu¬la passou a ocupar o lugar que nas últimas décadas era de Fidel Castro. Quem cobriu esses encontros sabe do que estou falando. Fidel era a estrela, o objeto primeiro de interesse dos jornalistas que cobriam os eventos. Entrevistas ao vivo com os demais chefes de Estado eram interrompidas abruptamente quando o presidente cubano chegava. Em alguma medida, é isso que vem acontecendo ultimamente com o Lula. Em muitas décadas, ele é a primeira cara nova que aparece no cenário internacional. Certamente terá sido por isso que o presidente Obama disse que Lula é “o cara”. E, aqui entre nós, é mesmo, não?

Aline Ribeiro – Em setembro de 2005, no auge dos escândalos envolvendo o PT e o governo Lula, o senhor afirmou que aquele momento era o pior da esquerda brasileira das últimas décadas, só existindo paralelo no massacre, em graus diferentes, durante a ditadura militar. Hoje, qual é a sua avaliação?

Fernando Morais – Embora não tenha feito nada diferente do que todos os governos fazem no Brasil – conseguir maioria no Congresso –, o governo Lula foi apanhado como bode expiatório. Apeada do poder, a elite não estava interessada apenas no Dirceu, no Palocci e no Gushiken. Eles queriam era a cabeça do Lula. Mesmo tendo sido um plano frustrado, foi um golpe certeiro na alma da esquerda.

Marcone Formiga – Não é da tradição brasileira um presidente fazer seu sucessor. O senhor acha que Lula conseguirá passar a faixa presidencial para a ministra Dilma Rousseff? Irá prevalecer o fenômeno Forrest Gump?

Fernando Morais – Também não era da tradição brasileira escolher um pobre para ser presidente da República e, no entanto, aí está ele, a caminho do fim do seu segundo mandato. Quanto à sucessão, quero lembrar que foi para mim, em dezembro passado, que o presidente Lula deu o “furo” jornalístico, afirmando, pela primeira vez, com todos os efes e erres, que sua candidata à sucessão presidencial era a ministra Dilma Rousseff. Era uma entrevista para a revista “Nosso Caminho”, do arquiteto Oscar Niemeyer, e me pareceu que o furo foi uma homenagem do presidente ao Oscar, uma canja para a sua revista.

Marcone Formiga – E como o senhor vê essa candidatura?

Fernando Morais – Cada dia mais, acho que é para ela mesmo que o Lula vai passar a faixa. Espero que o empuxo vertiginoso que a ministra teve nas pesquisas seja combustível para ela enfrentar e tirar de letra essa doença maldita. E Dilma vai se eleger não apenas por ser apoiada pelo Lula, que tem inacreditáveis 93% de avaliação positiva, mas porque é competente, séria, preparada, tem uma história de vida que, esta sim, deve dar um livro.

Aline Ribeiro – Já foi encaminhada uma PEC abrindo caminho para um terceiro mandato do presidente, que afirma não ter o menor interesse em ser tri-presidente. O senhor acha que deve ou não disputar mais um mandato? Por quê?

Fernando Morais – Eu fiz essa pergunta a ele, nessa entrevista a que me referi, e ele me pareceu sincero ao dizer que não quer saber de terceiro mandato. Na minha opinião, se a Constituição passar a permitir um terceiro mandato, acho que o presidente Lula deveria disputar as eleições. Por que não?

Aline Ribeiro – Sai governo, entra governo e a corrupção sempre aparece. O senhor concorda que a corrupção é um traço cultural bem brasileiro?

Fernando Morais - Não é a corrupção que é um traço cultural brasileiro. É a impunidade.

Aline Ribeiro – Não falta quem veja no PT um discurso stalinista. O senhor concorda com isso?

Fernando Morais – Isso é um elogio ou um insulto?

Marcone Formiga – As velhas ideologias perderam significado?

Fernando Morais – Não é pela idade que as ideologias perdem o significado. O cristianismo está aí há mais de dois mil anos e ainda não deu sinais de que esteja sofrendo fadiga de materiais.

Aline Ribeiro – O poder desgasta?

Fernando Morais – No Brasil o poder gasta. Gasta muito e gasta mal.

Marcone Formiga – Está atual, no momento político brasileiro, a frase de Leonardo da Vinci “Chi non può quel che vuol può voglia”, ou seja, “Quem não pode o que quer, queira o que pode”. O senhor concorda?

Fernando Morais – Essa frase é um tiro na testa das utopias. Uma versão dela (“Política você faz com o que tem, não com o que quer”) foi muito repetida durante a redemocratização espanhola, acho que pelo presidente Felipe González. Mas não é uma receita que sirva para todas as doenças. Se fossemos pensar assim no Brasil, até hoje estaríamos sob ditadura militar.

Marcone Formiga – Em “A Ilha”, o senhor demonstra conhecer muito bem Cuba. Hoje, com o Fidel afastado e o Raúl no comando, o que muda? Como o senhor vê a decisão da OEA em tornar sem efeito o veto contra Cuba?

Fernando Morais – De Eisenhower a Barack Obama, passando por Kennedy, Johnson, Nixon, Ford, Carter, Reagan, Bush pai, Clinton e Bush filho, passaram pela Casa Branca dez presidentes nos últimos 50 anos. Em graus diferentes, todos, à exceção de Obama, foram autores ou cúmplices de agressões contra Cuba. Primeiro, a direita jurou que a Revolução Cubana iria sucumbir sob os escombros do Muro de Berlim e da URSS. Erraram a previsão e passaram a apostar no afastamento de Fidel como o fim dos tempos. Fidel ficou doente, afastou-se, Raúl assumiu e lá estão os cubanos, de cabeça levantada. Na entrada de Havana existe um outdoor onde está escrito: “Esta noite, 200 milhões de crianças vão dormir na rua em todo o mundo. Nenhuma delas é cubana.”

Marcone Formiga – O que significa isso?

Fernando Morais – É isto o que explica a sobrevivência da Revolução. A recente decisão da OEA – um organismo decrépito, como disse Fidel – é mais uma prova de que a Revolução Cubana é para sempre.

Aline Ribeiro – O que se deve esperar e não esperar de Barack Obama?

Fernando Morais – Até agora foram só discursos. Bons discursos, mas só discursos. Ainda é cedo, vamos esperar.

Aline Ribeiro – Qual é o papel de Hugo Chávez na América Latina?

Fernando Morais – O que está acontecendo na Venezuela é o fenômeno político mais importante do continente desde a Revolução Cubana. A Revolução Bolivariana que Chávez lidera é sui generis: ele não é marxista, é cristão; o poder foi conquistado pelo voto e confirmado repetidas e reiteradas vezes; não há presos políticos no país; quem quiser medir o grau de liberdade de imprensa existente hoje na Venezuela que entre nos sites dos jornais El Universal e El Nacional para para ver o que eles dizem e como tratam o presidente Chávez. O que ele está fazendo é recuperar a Venezuela, um país riquíssimo para o seu paupérrimo povo.

Aline Ribeiro – O senhor vê razão para otimismo no momento?

Fernando Morais – Sim, claro. Trinta anos atrás havia mais de dez ditaduras militares na América Latina. Hoje temos o Lugo no Paraguai, o Tabaré Vasquez no Uruguai, a Cristina Kirschner na Argentina, o Lula no Brasil, o Evo Morales na Bolívia, o Chávez na Venezuela, o Correa no Equador, o Ortega na Nicarágua, o Funes em El Salvador e o Zelaya Rosales em Honduras. Melhorou bastante, não é mesmo? Fora a Colômbia e o Peru, pode-se dizer que o continente está todo pintado com novas cores.

Aline Ribeiro – Como foi a experiência de escrever a biografia do escritor Paulo Coelho?
Fernando Morais – Foi uma experiência muito interessante e que me exigiu quatro anos de dedicação. O personagem é muito especial e, escrevendo “O Mago”, tive o desafio gratificante de desvendar os segredos de uma personalidade complexa, enigmática e, digo, até mesmo misteriosa.

Marcone Formiga – Dá para o senhor resumir um pouco o que revela no livro?

Fernando Morais – Paulo Coelho nasceu morto. Ele simplesmente não apresentava sinais de vitais, tanto que seus pais trataram de chamar um padre para lhe dar a extrema-unção. Surpreendentemente, pouco antes do sacramento ser ministrado, ele deu o primeiro suspiro e chorou...

Aline Ribeiro – Depois, levou uma vida normal?

Fernando Morais – Nada disso! Ele foi internado nada menos que três vezes pelo pai, em um hospital psiquiátrico, como um doente mental. A morte esteve próxima dele muitas vezes. Como se não bastasse, ele fez três tentativas malsucedidas de suicídio.Além disso, na juventude, buscando sua própria identidade, teve experiências homossexuais e também com drogas...

Marcone Formiga – Como o senhor direcionou o livro quanto a isso?

Fernando Morais – Em “O Mago”, relato suas manias, inclusive, como, por exemplo, não pronunciar nomes de algumas pessoas, além de bater três vezes em uma madeira. O livro revela a vida de um homem que sonhou, superou desafios e conseguiu atingir os seus objetivos. Ele, sem dúvida nenhuma, é um exemplo de determinação.