Coisas que fiz e das quais tenho vergonha #1: comprar um livro do Paulo Coelho (mais ou menos)

12/06/2009 - http://apipocamaisdoce.blogspot.com/ - Portugal
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Então foi assim que a coisa se deu: faz amanhã duas semanas entrei na Fnac ao final do dia. Estava à espera que o meu homem me fosse buscar e, para fazer tempo, dei um salto ao bar da Fnac só para comprar uma água. Acontece que estava a decorrer a apresentação de um livro, feita pela Leonor Xavier. Não percebi que livro era, pela conversa pareceu-me altamente entediante, até que passaram a palavra ao autor. Era um brasileiro, com idade para ser meu pai, e daqueles que abre a boca e uma pessoa já não consegue desligar. Peguei na água, sentei-me, e fiquei a ouvi-lo mais de uma hora. Ora o livro deste senhor, de seu nome Fernando Morais, é nada mais nada menos do que a biografia do Paulo Coelho. Pois. Um calhamaço com mais de 600 páginas. Mas o senhor (que é jornalista, e daqueles mesmo bons) vendeu a história tão convincentemente (e que história, a vida do homem mete todas as drogas e mais algumas, satanismo, choques eléctricos, experiências homossexuais... e, ainda assim, vende livros como ninguém), que eu dei por mim a folhear o livro. Senti-me mais aliviada quando ele anunciou que o livro era tanto para os que amavam como para os que não percebiam o fenómeno Paulo Coelho. Como estou neste último sector (apesar de ter lido vários livros do senhor na adolescência), acabei por levar o livro para casa. No fim fui falar com o Fernando Morais e disse-lhe isto tudo. Que só tinha ido comprar uma água e que, sabe-se lá como, tinha acabado com a biografia do Paulo Coelho nas mãos. E que nem gostava dele. E ele disse que mais do que gostar de Paulo Coelho, o livro valia pela história. Já percebi que sim, que o homem escreve bem que se farta e que é um excelente contador de histórias. Mas agora tenho de andar no metro com um livro chamado ''O Mago'', onde o nome Paulo Coelho é bem maior do que o do próprio autor. E tenho um bocadinho de nada de vergonha. E vou sempre a tentar esconder a capa. E odeio forrar livros, se é essa a vossa sugestão. Pois, pois, sou preconceituosa, que fazer?

A cegueira da visão e o amargo da língua
Provocações a partir de Paulo Coelho
Jean Wyllys
http://bloglog.globo.com/blog/blog.do?act=loadSite&id=167&mes=8&ano=2008
Eu gosto de Paulo Coelho. No início da década de 90, eu li, com muito interesse, os seus primeiros livros – O alquimista, Diário de um mago e Brida. E não foram as listas de “mais vendidos” de jornais e revistas que me levaram até eles. Meu interesse em ler Paulo Coelho nasceu do fato de eu adorar as letras que ele escreveu para as canções do baiano Raul Seixas. Paulo e Raul formaram, por anos, uma dupla de compositores que revolucionou o rock brasileiro. Gostei tanto dos livros do escritor quanto já gostava das letras do compositor, mesmo tendo encontrado, neles (nos livros), textos com períodos simples, metáforas pouco insólitas e uma narrativa linear. O bom, nos livros do mago, eram as histórias de misticismo e como elas eram contadas.
Estava claro, para mim, que Paulo Coelho escrevia de modo bem diferente daquele que escreviam os escritores que pertenciam ao - ou almejavam o - cânone literário (aqueles elogiados pela crítica, laureados por prêmios e, quase sempre, membros de academias de Letras). Compreendi, de imediato, que Paulo jamais poderia ser avaliado segundo os mesmos critérios utilizados para avaliar a obra de Clarice Lispector e fascínio que ela causa no leitor, por exemplo. A avaliação da literatura do mago e de seu sucesso de público deveria buscar novos caminhos.
Gosto tanto de Paulo Coelho que assim que eu vi sua biografia – O mago, escrita pelo admirável e talentoso jornalista Fernando Morais – nas estantes de lançamentos das livrarias, comprei-a e comecei a ler as primeiras páginas ali mesmo. Devorei o calhamaço de 630 páginas em uma semana porque a história de vida de Paulo é mesmo surpreendente e fascinante, mas, também porque Fernando Morais escreve bem e de maneira envolvente. Mesmo a quem não gosta de Paulo Coelho ou ainda não leu qualquer de seus livros, eu recomendo a leitura de O mago.
Há muita coisa para destacar na biografia de Paulo Coelho. Eu poderia falar, por exemplo, de suas três experiências homossexuais antes de concluir que era heterossexual. Paulo é tão corajoso que não só assume que já transou com homens como admite que foi penetrado por eles. Não é qualquer um que admite que já deu o cu, principalmente numa cultura machista e homofóbica como a nossa, em que a expressão “vá tomar no cu” equivale a uma ofensa terrível. O fato de o mago ter experimentado a homossexualidade antes de abraçar, de vez, a heterossexualidade mostra que a prática sexual, por si só, não define a identidade sexual de uma pessoa.
Mas, eu prefiro falar da relação de Paulo Coelho com a crítica literária, ou melhor, da postura desta em relação à obra do escritor. Em três diferentes capítulos da biografia, Fernando Morais mostra como os jornalistas e críticos literários brasileiros esquartejaram publicamente Paulo Coelho – com ironias ofensivas e prognósticos de que seu sucesso era uma moda de verão – e narra o vergonhoso episódio em que o Ministério da Cultura, no governo de Itamar Franco, excluiu o mago da caravana de dezoito escritores que viajou para a Feira de Frankfurt, na Alemanha, com todas as despesas pagas pelo governo, embora ele fosse – e ainda seja – o escritor brasileiro mais popular no mercado internacional (em contrapartida, Paulo Coelho foi recebido de braços abertos pelo então presidente Chirac, na França, tamanha a sua popularidade e prestígio).
Antes, bem antes, de Fernando Morais começar a escrever O mago, eu já questionava a invisibilidade imposta a Paulo Coelho nos cursos superiores de Letras e Literatura. Durante o meu mestrado (em Letras e Lingüística pela Universidade Federal da Bahia), travei longas discussões com professores e colegas acerca do fato de a academia ignorar ou menosprezar o fenômeno Paulo Coelho. Os professores de Teoria Literária e de Literatura Brasileira afirmavam que ele não tem “valor literário”, como se “valor literário” fosse um dado da natureza, como o são as pedras, e não algo conferido por homens segundo critérios que mudam no tempo e no espaço. Percebi, então, que Paulo Coelho rondava os cursos superiores de Letras como um fantasma a evocar os espectros da Literatura Brasileira - algo semelhante ao que acontece em Hamlet, de Shakespeare.
Em 2006, num evento chamado “Cultura a céu aberto”, promovido pela Petrobrás para três mil de seus funcionários na Bahia, eu tive um entrevero com o ator e apresentador Antônio Abujamra e com a atriz e cineasta Carla Camurati por causa de Paulo Coelho. Nós três mais o diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa dividíamos uma mesa de palestras e debates. Quando terminei a minha fala, Camurati e Abujamra me questionaram - visivelmente irritados, mas, sem argumentos para me contestar – por que eu acabara de afirmar que Paulo Coelho era tão literatura quanto Nélida Piñon. “Ora, porque o valor literário é conferido às obras segundo certos critérios. Até o início do século XX, a literatura feita por mulheres não só não tinha valor literário, segundo os critérios machistas de avaliação, como não era publicada; a idéia que se tinha era que só homens sabiam e podiam fazer literatura”, respondi.
Um ano antes, no prefácio de meu livro Ainda lembro, eu escrevi que, como todo escritor (embora nem todos admitam), eu quero ser lido por muitos; que eu quero ser Paulo Coelho. Muitos jornalistas enxergaram, nesta afirmação, uma pretensão tamanha. Apenas um – Marcos Uzel, do Correio da Bahia - vislumbrou que se tratava, na verdade, de uma provocação:
Marcos Uzel - A afirmação ''quero ser Paulo Coelho'' (página 15) também foi uma provocação?
JW - Sim. Paulo Coelho é um fenômeno de público, mas é desprestigiado pela intelligentsia brasileira, por aqueles que tramam o cânone literário. Ora, se milhares de pessoas trocam João Guimarães Rosa por Paulo Coelho, isso não pode ser considerado um mero equívoco por gente que se julga especial por consumir livros, discos e filmes caros e para poucos. A gente não pode esquecer que nenhum escritor nasce bom ou já conhecido do público; ele é considerado bom e se torna famoso segundo certos critérios, que mudam no tempo e no espaço. Durante muito tempo, nenhuma mulher foi considerada escritora porque os critérios eram machistas, se é que eles deixaram de ser. Paulo Coelho só é considerado um escritor ruim segundo certos critérios elaborados por gente que faz distinções culturais para sustentar seus privilégios.
É importante não esquecer que Ainda lembro só mereceu a atenção dos jornalistas e críticos porque ficou algumas semanas seguidas nas listas de mais vendidos. Um das críticas mais violentas que o livro recebeu partiu de um jornalista de prestígio, importante para a história do jornalismo cultural brasileira e cuja maioria das crônicas me agrada muito: Artur Xexéo, em sua coluna de domingo; e não só porque Ainda lembro estava entre os mais vendidos, mas, talvez porque, dias antes, no Sem censura, ao ser questionado por Leda Nagle se eu estava preparado para os preconceitos da crítica, eu tenha respondido (citando Adriana Calcanhotto): “Sim, estou preparado. Eu agüento até os modernos e seus segundos cadernos. Eu agüento até os caretas e suas verdades perfeitas. O que eu não gosto é do bom gosto”. Detalhe: Segundo caderno é nome das páginas de O Globo dedicadas às artes e espetáculos, das quais, Artur Xexéo é editor.
Antes de Paulo Coelho, os únicos escritores brasileiros que podiam viver exclusivamente da vendagem de seus livros eram meu conterrâneo Jorge Amado e o gaúcho Érico Veríssimo. Mas, ao contrário de Paulo Coelho, Amado e Veríssimo costumavam tratar a crítica e o cânone literário com o desdém ou a ironia fina de quem está acima deles. Quando Clarice Lispector, em entrevista para uma já extinta revista (Manchete ou Fatos & fotos, não sei ao certo), perguntou a Érico Veríssimo por que ele não agradava aos críticos e intelectuais, o escritor gaúcho lhe respondeu:

“Para começo de conversa, devo confessar que não me considero um escritor importante. Não sou inovador. Nem mesmo um homem inteligente. Acho que tenho alguns talentos que uso bem... mas que acontece serem os talentos menos apreciados pela chamada ‘crítica séria’, como, por exemplo, o de contador de histórias. (...). Há ainda essa natural má vontade que cerca todo escritor que vende livro, a idéia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior. (...) Mas, falando sério, concordo com os críticos: não sou profundo. Espero que me desculpem”.

Jorge Amado, também em entrevista para Clarice Lispector, conseguiu ser mais irônico:

“[Os meus livros] São os livros que posso fazer. Busco fazê-los o melhor que posso. São rudes, sem finuras nem filigranas de beleza; são, por vezes, ingênuos, sem profundezas psicológicas e sem angústias universais; são pobres de linguagem e muitíssima coisa. São livros simples de um contador de histórias da Bahia. (...). Eu escrevo como me agrada; não há escritor mais livre neste país. Não tenho compromissos senão comigo mesmo: nem com modas, nem com escolas, nem com circunstâncias, nem com academias, nem com editores, nada. Tenho um único compromisso: com o povo – e não é demagogia, sou antidemagogo. Com o povo, porque creio que meu dever de escritor é servi-lo. Quanto ao público, é ele que tem compromisso comigo e não eu com ele”.

Érico Veríssimo e Jorge Amado são meus ídolos. Como escritor que não chega aos pés dos dois, eu faço minhas as palavras deles. Paulo Coelho deveria fazer o mesmo e ele até esboçou reação um pouco parecida em algumas de suas entrevistas; porém, sua literatura começou a dar sinais de que ele, na verdade, sofria com a indiferença ou avaliações negativas por parte dos críticos e intelectuais brasileiros: depois destas, Paulo Coelho começou a escrever tendo o cânone literário como referência; começou a colocar, em suas histórias, as “finuras”, “filigranas de beleza”, “profundezas psicológicas” e “angústias universais” exigidas pela crítica como forma de agradá-la; como forma de ser admitido no cânone literário (leia-se na Academia Brasileira de Letras). Foi a partir daí – foi a partir desse esforço para se livrar daquilo que os críticos não gostavam – que Paulo Coelho, para mim, começou a ficar desinteressante, pois foi perdendo aquilo que sua literatura tinha de melhor: o compromisso com o povo e com aquilo que Jorge Amado chamou de “compromisso do escritor apenas consigo”: algo que o levava a contestar e a provocar a crítica literária brasileira, devido ao seu enorme sucesso de público, e a lançar no ar a pergunta que não quer calar: “afinal, o que é literatura?”.



O melhor personagem
Dojival Filho
Do Diário do Grande ABC
Internações psiquiátricas, cultos satânicos, consumo excessivo de drogas e relacionamentos homossexuais. Esses e outros assuntos controversos pontuam a recém-lançada biografia, O Mago - A Extraordinária História de Paulo Coelho (Planeta, 632 págs., R$ 60), do escritor e jornalista Fernando Morais. Desde o último sábado (31), quando chegou às livrarias, a obra já vendeu cerca de 10 mil exemplares, número expressivo para o mercado brasileiro. A primeira edição do livro, que deverá ser publicado em 47 países, conta com 100 mil exemplares.
Autor de biografias bem-sucedidas no mercado editorial, como Chatô, o Rei do Brasil e Olga (sobre a militante comunista Olga Benário), Morais garantiu que não sofreu qualquer tipo de restrição. ''Foram quatro anos extremamente exaustivos e estressantes. No nosso primeiro encontro, disse que ele não leria os originais do livro. Para minha surpresa, ele topou. Sofri um dilema ético e me perguntei se poderia revelar certas coisas. Minha consciência só se tranqüilizou quando vi que não estava sendo aético e que se o próprio Paulo não tinha imposto a censura, eu não poderia me censurar'', explicou o jornalista.
Resultado de intensa pesquisa - que incluiu a leitura de dezenas de diários escritos pelo biografado -, O Mago detalha a trajetória conturbada de um homem que sempre alimentou a idéia de se tornar uma celebridade no universo literário. Desde o nascimento (quando quase morreu, por conta de uma asfixia com o líquido amniótico) teve de superar adversidades.
''O Paulo tinha tudo para dar errado. A vida colocou tantos obstáculos para ele, que era para ter se suicidado. Ele tentou algumas vezes'', afirmou Morais, que concedeu entrevista coletiva pela internet, ontem à tarde.
Influenciado pelo desbunde hippie e interessado desde sempre em questões esotéricas, o ‘mago' foi internado três vezes em clínicas psiquiátricas do Rio, por iniciativa do próprio pai, que não compreendia seu comportamento. Em seus tratamentos, passou por sessões de eletrochoque.
REVELAÇÕES
Entre as passagens polêmicas do livro, está a que descreve uma experiência mística vivida por Paulo Coelho na Alemanha, no início da década de 1980. ''Ao visitar um campo de concentração nazista, ele viveu um epifania. Viu uma luz e ouviu uma voz que propôs um encontro com ele em algumas semanas. Não importa se foi uma epifania ou um surto psicótico. Uma coisa importante aconteceu. Depois disso, abandonou as drogas, o satanismo e passou a ser um bom marido'', contou o autor.
Embora se defina como ateu, Morais não duvidou dos relatos de Paulo Coelho, que já promoveu sacrifícios de animais em cerimônias macabras.
Durante o processo de produção do livro, outros episódios deprimentes vieram à tona. Quando era jovem, o ‘mago' não prestou socorro a um garoto que atropelou em um acidente automobilístico, ocorrido em uma segunda-feira de Carnaval. ''O Paulo me pediu para ir atrás desse garoto, para saber onde e como ele estava. Ele não acredita em coincidências, mas descobri que 35 anos depois daquele acidente, esse mesmo garoto foi assassinado em uma segunda-feira de Carnaval'', lembrou Morais, em tom enigmático.
A curiosidade em relação ao homossexualismo fez com que o escritor popstar recorresse a um garoto de programa da Galeria Alaska, reduto da comunidade gay carioca nos anos 1970 e 1980.
TORTURA
Morais revelou na entrevista que só teve acesso aos diários de Paulo depois de aceitar um desafio proposto pelo biografado, que foi torturado durante o regime militar.
''Ele gosta muito de apostas e disse que eu poderia ver os diários que estavam nesse baú - uma arca que as famílias de antigamente usavam em viagens longas -, se descobrisse quem foi o policial que o torturou no interior do Paraná, em 1969. Eu fui atrás e descobri.''