O lado negro do senhor cem milhões
23/05/2009 - Expresso - Portugal
José Mário Silva
NESTA BIOGRAFIA DE PAULO COELHO, FERNANDO MORAIS NARRA A VIDA EXTRAORDINÁRIA DE UM HOMEM MEDÍOCRE
Texto de José Mário Silva
EM TRAÇOS gerais, pode dizer-se que há dois tipos de biografias sobre pessoas vivas: as autorizadas e as não-autorizadas. As primeiras estão sujeitas ao crivo da “vítima”, pelo que tendem a ser neutras (nos melhores casos) ou ostensivamente hagiográficas (nos piores). As segundas não obedecem a nenhum acordo entre o biógrafo e o biografado, o que compromete quase sempre a sua credibilidade e até a sua legitimidade. Não faltam nas livrarias exemplos de vinganças pessoais, apoiadas em “revelações” especulativas e assinadas por antigos mordomos, amantes traídas ou amigos desavindos, ávidos de um ajuste de contas que humilhe o ‘ex-’ na praça pública. Em “O Mago”, Fernando Morais inaugura uma terceira categoria: a biografia autorizada que revela tudo o que se espera de uma não-autorizada. Ou ainda mais.
Bombardeado por dezenas de propostas de biógrafos do mundo inteiro, Paulo Coelho escolheu Morais por reconhecer isenção e rigor ao repórter de São Paulo, um marxista que não deixou de apontar o dedo às atrocidades cometidas pelo Partido Comunista Brasileiro no livro que escreveu sobre Olga Benário (a companheira mártir de Luís Carlos Prestes, secretário-geral do PCB). Coelho não ignorava, por isso, os riscos que corria ao dar acesso total aos seus diários, até aí fechados à chave num baú. Logo que abriu a enorme arca, com 170 cadernos e quase uma centena de cassetes lá dentro (cobrindo exaustivamente quatro décadas), Morais soube de imediato que lhe tinha caído no colo a sorte grande, sob a forma de uma caixa de Pandora. Depois, foi só tirar lá de dentro – e organizar cronologicamente, um a um – os muitos segredos inconfessáveis do biografado.
Antes de chegar ao estrelato atual (muitíssimo bem descrito no primeiro capítulo, que registra com minúcia o dia-a-dia do popstar, durante o périplo de lançamento de “O Zahir”, em 2005) quando ainda não se cumprira o seu sonho obsessivo (“ser um escritor lido em todo o mundo”), a existência de Paulo Coelho foi uma sucessão de tragédias, desilusões e falhanços. Ao menino que nasceu clinicamente morto, aconteceu de tudo: experiências com drogas, indefinições sexuais, internamento num manicômio (onde foi tratado com eletrochoques), uma fase hippie, uma fase satânica, profissões precárias, estudos de vampirismo, pactos com o diabo, passagens pelos cárceres da ditadura, depressões profundas, inseguranças épicas, derrotas humilhantes, epifanias em Dachau e uma lista infindável de sacanices perpetradas a torto e a direito. Sem entrar em detalhes, Paulo Coelho foi, durante anos a fio, um aldrabão, um mentiroso, um cobarde, um plagiador, um ganancioso sem escrúpulos, um mitômano e um absoluto irresponsável. Em suma, um escroque. Ou, na visão dos seus fãs, um ser que estava condenado às chamas do inferno mas que, um dia, viu a luz e se salvou.
Com as suas contradições e zonas de sombra, a vida atribulada de Paulo Coelho tem potencial para dar um bom romance – decerto muito melhor do que os livros medíocres e edulcorados que fizeram dele um best-seller. Sem nunca abandonar o reduto da objectividade jornalística, “O Mago” é uma aproximação a esse romance ainda por escrever, sobre um homem que aparentemente venceu seus fantasmas e recalcou as suas ignomínias, de olhos postos numa glória material (os 100 milhões de livros vendidos, a fama, a fortuna) e espiritual (os lugares-comuns místicos, a pose beatífica) que o redima dos abismos onde esteve quase a perder-se.
Para ler esta matéria no original, no Bibliotecário de Babel - Portugal, clique aqui