De Olhos Arregalados

17/05/2009 - Ípsilon - Suplemento Cultural do jornal 'O Público', de Portugal.
Isabel Coutinho

Uma biografia que se lê - de olhos arregalados - como se fosse um livro de ficção

As ideias preconcebidas que cada um de nós tem sobre Paulo Coelho, o escritor brasileiro que já vendeu 100 milhões de livros, vão cair por terra depois da leitura de ''O Mago'', a monumental biografia do jornalista brasileiro Fernando Morais. Para o bem e para o mal.
O retrato que Morais faz do autor de ''O Alquimista'' não deixará nenhum leitor indiferente e mostra claramente que Paulo Coelho é um sobrevivente. Aliás, para Morais, ''o sobrevivente'' seria um título muito fiel ao conteúdo deste livro.

Fernando Morais teve acesso aos diários do escritor - que foram escritos dos 10 aos 50 anos e a gravações suas em cassete - e durante os quatro anos que demorou a escrever esta biografia, de 2005 a 2008, falou inúmeras vezes com o escritor, com familiares, com amigos, com inimigos, com ex-mulheres.

Acompanhou-o em ''tournée'' por vários países e o primeiro capítulo - ''É um pássaro? É um avião? Não, é o 'popstar' Paulo Coelho, o escritor que já vendeu mais de cem milhões de livros'' - é uma obra-prima do jornalismo literário, mistura reportagem e perfil de Paulo Coelho, o escritor ''superstar'' em acção.

A nível estilístico estas primeiras 60 páginas são as melhores de todo o livro. Nas 600 páginas seguintes essa qualidade literária não é tão exímia, mas o que se perde, em estilo ganha-se em informação, em detalhes, em pormenores inconfessáveis, em revelações inéditas sobre a vida de Paulo Coelho.

Fernando Morais, autor de ''Corações Sujos'' (que foi Prémio Jabuti 2001), é um óptimo jornalista - descobriu e confirmou coisas muito íntimas sobre o seu biografado, o único ainda vivo de todos os livros que Morais já escreveu. Fernando Morais mantém-se imparcial e consegue não emitir uma única opinião. Quis fazer um retrato o mais fiel possível de Paulo Coelho, ''sem canonizar nem sacrificar'', e conseguiu. Distinguir entre o que era delírio e o que era facto deve ter criado grandes dificuldades, mas da obra ficou arredada qualquer hesitação. ''O Mago'' é também o retrato de uma época.

Antes de ser escritor, Paulo Coelho experimentou ser muitas outras coisas e em algumas teve igualmente sucesso. Fez e escreveu teatro, passou por jornais, foi letrista de muito sucesso (na dupla com Raul Seixas) e executivo da editora discográfica CBS. Hippie nos anos 60 e 70, viajou pelo mundo e pela leitura de ''O Mago'' ficamos convencidos que desde a adolescência tinha o desejo de vir a ser escritor mundialmente famoso. Era um ávido leitor mas também um mau aluno e a sua adolescência foi perturbada pelo internamento em casas de saúde onde foi submetido a electrochoques.

Experimentou e abusou de todo o tipo de drogas (isto aconteceu durante anos até ao dia em que decidiu deixar de consumir). Foi preso e torturado durante a ditadura, raptado por um comando do DOI - Codi (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna). Foi cobarde. Teve dúvidas quanto à sua orientação sexual, foi para a cama com mulheres e com homens. Teve casamentos com regras nada convencionais. Praticou satanismo (era seguidor de Aleister Crowley), fez um pacto com o diabo que depois desfez, e está convencido que teve um encontro com o demónio.

Atropelou uma criança, contratou um escravo, incitou uma namorada a levar até ao fim uma tentativa de suicídio, aldrabou pessoas, enviou para ser publicado num jornal um texto que era cópia integral de um texto que Carlos Heitor Cony publicara noutro jornal, participou num livro em cuja capa vem o seu nome mas do qual ele não escreveu uma única linha. A sua vida mudou quando numa visita que fez ao campo de concentração de Dachau, na Alemanha. Tinha 35 anos e mais tarde conhecee Jean, o seu mestre, que o levou a reencontrar-se com o catolicismo. E o resto já se sabe, os seus livros estão publicados em 66 idiomas e publicados (excluídas as edições piratas) em 160 países.

Foi por causa de ''Olga'', o livro de Fernando Morais sobre Olga Benario, judia comunista alemã entregue aos nazis pelo governo de Getúlio Vargas (ed. Avante), que Paulo Coelho aceitou ser seu biografado. A única condição imposta por Morais foi que Coelho não tivesse acesso ao manuscrito durante a escrita. O escritor só leu ''O Mago'' no final e permitiu que fosse publicado. Já disse que esta biografia o obrigou a fazer psicanálise, que era como se tivesse colocado um dedo na garganta. Afirmou também que agora pode ''dormir em paz'': já não há nada que as pessoas possam descobrir sobre ele.