“Google não melhora texto”

03/05/2009 - Zero Hora – Porto Alegre
LUIZ ZINI PIRES

Escritor Fernando Morais lembra do seu livro-reportagem e fala do jornalista do presente e do passado
Cultura alcançou Fernando Morais em Caracas. Antes de falar dos projetos futuros, ele precisou voltar 32 anos na sua vida de escritor para lembrar de A Ilha. Leia a seguir a entrevista:

Cultura – Ao escrever a Ilha o senhor imaginou que o livro seria qualificado como um dos maiores da história da reportagem do Brasil?

Fernando Morais – Quando comecei a pedir visto de entrada em Cuba, no começo dos anos 70, eu trabalhava no Jornal da Tarde. O projeto era fazer uma série de reportagens, mas como demoraram muito, quando o visto foi concedido eu já tinha mudado de emprego. A Ilha foi escrito para sair em capítulos na revista Visão. Mas o dono da revista não gostou, acabou me demitindo, e decidi publicar o material em livro. Passados 32 anos, a curiosidade por Cuba permanece, e o livro continua vendendo.

Cultura – Na Academia ainda se discute uma suposta oposição entre a biografia produzida pelo jornalista e um estudo feito por um historiador. O que senhor acha?

Morais – Como acontece em muitas profissões, a experiência da redação atribui ao jornalista uma natureza adicional, que faz com que ele enxergue (ou se interesse por) coisas pelas quais um não-jornalista não se interessaria. Que diferença faz para um historiador que o personagem de sua história esteja ou não com um buraco na sola do sapato? Ou que seja virgem aos 37 anos? Talvez eu seja menos vitimado pelas críticas acadêmicas pelo fato de que meus originais são lidos e previamente criticados por Marina – uma historiadora com pós-doutorado na França – com quem sou casado há 30 anos. Mas nem sempre escapo de uns cascudos. Um professor da USP disse uma vez ao Jornal do Brasil que não gostou de Chatô porque o livro revelava um autor “sem metodologia”. O jornal quis saber o que eu achava disso e só me restou responder que iria fazer um curso de metodologia para ver se assim meus livros passavam a vender tão pouco quanto os do meu crítico.

Cultura – Há diferenças entre as reportagens escritas no século passado e as de hoje?

Morais – No século passado a qualidade da educação oferecida às pessoas era visivelmente superior à de hoje. Não me refiro às escolas de jornalismo, que nem existiam, mas à alfabetização. Saber português era o único pré-requisito para se entrar num jornal. Hoje em dia, se você submeter a redação de um jornal ou revista a um desses testes de português dos vestibulares é possível que sobrevivam poucos.

Cultura – Você acredita que a tecnologia disponível está ajudando o repórter dos nossos dias a ser melhor do que os do passado?

Morais – A tecnologia diminuiu a lambança. Antes dela, o fechamento de uma grande reportagem (ou de um livro-reportagem) se convertia numa montanha de papéis, anotações, ilustrações, documentos e transcrições de fitas. Organizar toda essa maçaroca de informações para começar a escrever era um trabalho braçal, coisa para estivador. A tecnologia acabou com isso, mas quem escrevia mal continua escrevendo mal. Computador, Google e Wikipedia não melhoram a qualidade do texto de quem não sabe apurar ou não escreve bem.

Cultura – Com a gradativa redução de espaço nos jornais, a grande reportagem pode vir a migrar em definitivo para os livros?

Morais – Em alguma medida isso já vem acontecendo. Eu preferia ainda estar em uma redação de jornal ou revista. Mas, convenhamos, que jornal ou revista publicaria (ainda que em capítulos, como os velhos folhetins) as 600 páginas de Chatô, ou de O Mago? Meu prazer de ler quatro jornais todas as manhãs vem diminuindo gradativamente, porque as chamadas hard news já foram lidas na web (com fotos, imagens em movimento etc.) no dia anterior e a grande reportagem desapareceu dos diários. Mas há luz no fim do túnel: tenho a impressão (ou a esperança) de que, para competir com a internet e sobreviver, os jornais terão obrigatoriamente que voltar à grande reportagem.

Cultura – Se você tivesse que comprar três livros de reportagens, quais seriam?

Morais – Relato de um Náufrago, de Gabriel Garcia Márquez, Diário do Ano da Peste, de Daniel Defoe, e a série do Elio Gaspari sobre a ditadura militar. Se coubesse um quarto, seria Esta Noite a Liberdade, de Larry Collins e Dominique Lapierre, um livro monumental sobre a descolonização da Índia. Cabe mais um? Então vai O Reino e o Poder, o retrato do jornal New York Times escrito por Gay Talese.

Cultura – Qual o seu próximo livro. Será uma biografia do Chávez?

Morais - Não, eu arquivei meu plano de fazer a biografia de Chávez quatro anos atrás, ao descobrir que o jornalista Bob Fernandes (ex-Carta Capital) tinha chegado antes de mim. Assim que terminar a maratona de lançamentos internacionais de O Mago, a biografia de Paulo Coelho, volto para a estrada. Estou com dois assuntos na mira para o próximo livro. O primeiro é a história de Princesa, um município paraibano que proclamou sua independência e se tornou o estopim da Revolução de 30. A propósito, estou em busca de um (ou uma) repórter júnior aí em Porto Alegre que se interesse em fazer um free-lance sobre as ramificações desse episódio no Rio Grande do Sul. A segunda opção é um livro sobre os cinco agentes que Cuba infiltrou na CIA de Miami para prevenir atentados terroristas contra a ilha. Os cinco estão presos na Flórida, condenados à prisão perpétua. Se tiver fôlego, faço os dois livros.

Em “ A Ilha” (Cia das Letras, 264 páginas, R$ 37,90), Fernando Morais revelou aos brasileiros um lado da ilha de Fidel Castro nos anos 1970